{"id":19048,"date":"2024-08-25T20:58:21","date_gmt":"2024-08-25T11:58:21","guid":{"rendered":"https:\/\/neonmetin.info\/buletin\/?p=19048"},"modified":"2024-08-26T09:18:14","modified_gmt":"2024-08-26T00:18:14","slug":"a-interfet-a-habilidade-diplomatica-de-antonio-guterres-e-jorge-sampaio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/neonmetin.info\/buletin\/2024\/08\/25\/a-interfet-a-habilidade-diplomatica-de-antonio-guterres-e-jorge-sampaio\/","title":{"rendered":"INTERFET: A HABILIDADE DIPLOM\u00c1TICA DE ANT\u00d3NIO GUTERRES E JORGE SAMPAIO"},"content":{"rendered":"\n<p><strong><em>Por: Carlos da Silva L. F. R. Saky<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A INTERFET (International Force East Timor), For\u00e7a Internacional para Timor-Leste, tinha como objetivo p\u00f4r fim \u00e0 viol\u00eancia que se seguiu ao an\u00fancio do resultado da consulta popular. Foram as habilidades e ast\u00facias diplom\u00e1ticas de Ant\u00f3nio Guterres e Jorge Sampaio que permitiram o envio dessa for\u00e7a para Timor-Leste.<\/p>\n\n\n\n<p>Este ano, a 30 de agosto de 2024, Timor-Leste celebrar\u00e1 o 25.\u00ba anivers\u00e1rio da consulta popular organizado pelas Na\u00e7\u00f5es Unidas. Ant\u00f3nio Guterres, antigo Primeiro-Ministro de Portugal e atual Secret\u00e1rio-Geral da ONU, e Dur\u00e3o Barroso, ex-Ministro dos Neg\u00f3cios Estrangeiros, estar\u00e3o presentes nas comemora\u00e7\u00f5es, ao lado de outras figuras destacadas de Portugal e do mundo.<\/p>\n\n\n\n<p>Este artigo destaca tr\u00eas figuras portuguesas essenciais no contexto de Timor-Leste: Dur\u00e3o Barroso, Ant\u00f3nio Guterres e Jorge Sampaio, com especial \u00eanfase nos dois \u00faltimos, dado o seu papel como Primeiro-Ministro e Presidente da Rep\u00fablica em 1999. Ambos exerceram uma press\u00e3o diplom\u00e1tica astuta sobre o Presidente norte-americano Bill Clinton, com o objetivo de p\u00f4r fim \u00e0 viol\u00eancia em Timor-Leste e acabar definitivamente com a ocupa\u00e7\u00e3o militar indon\u00e9sia no territ\u00f3rio.<\/p>\n\n\n\n<p>O problema de Timor-Leste, entre 1975 e 1990, foi extremamente complexo, envolvendo grandes pot\u00eancias devido ao impacto da Guerra Fria. Dur\u00e3o Barroso explicou a complexidade desta quest\u00e3o numa reuni\u00e3o privada entre ele, o saudoso La\u2019Sama e eu, na sede do PSD em Lisboa. Em 2000, ap\u00f3s a forma\u00e7\u00e3o da Assembleia Constituinte, La\u2019Sama, ent\u00e3o Vice-Ministro dos Neg\u00f3cios Estrangeiros, visitou Portugal, e eu acompanhei-o numa reuni\u00e3o informal com Dur\u00e3o Barroso, que na altura era Presidente do PSD.<\/p>\n\n\n\n<p>Como Ministro dos Neg\u00f3cios Estrangeiros, Dur\u00e3o Barroso enfrentou intensas press\u00f5es n\u00e3o apenas dos aliados da Indon\u00e9sia, mas tamb\u00e9m dos membros da Uni\u00e3o Europeia com fortes rela\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas e comerciais com a Indon\u00e9sia. No entanto, Barroso resistiu e n\u00e3o cedeu \u00e0s press\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>Durante essa reuni\u00e3o, Barroso descreveu as dificuldades em defender a causa de Timor-Leste, que estava quase esquecida pela comunidade internacional, e as intensas press\u00f5es que Portugal enfrentava. Para ilustrar a situa\u00e7\u00e3o dram\u00e1tica, ele foi at\u00e9 \u00e0 porta, abriu-a e manteve-a com o p\u00e9 esquerdo para que n\u00e3o se fechasse completamente, apesar da press\u00e3o intensa de v\u00e1rios pa\u00edses, incluindo os parceiros econ\u00f3micos da Indon\u00e9sia na Europa Ocidental. A Uni\u00e3o Europeia, assim como os Estados Unidos e a Austr\u00e1lia, nunca apoiaram os interesses de Portugal em rela\u00e7\u00e3o a Timor-Leste. Pa\u00edses como Reino Unido, Alemanha, Fran\u00e7a, Holanda e Estados Unidos vendiam armas \u00e0 Indon\u00e9sia e pressionaram Portugal a abandonar e esquecer Timor. Apesar da intensa press\u00e3o e dor, Portugal teve de resistir para evitar que a quest\u00e3o de Timor-Leste ca\u00edsse no esquecimento. Como Pot\u00eancia Administrante, Portugal n\u00e3o queria trair Timor-Leste da mesma forma que a Espanha traiu o povo do Saara Ocidental. O pa\u00eds manteve-se firme na sua posi\u00e7\u00e3o, com o apoio das ex-col\u00f3nias portuguesas em \u00c1frica, enquanto aguardava uma mudan\u00e7a na dire\u00e7\u00e3o do vento que beneficiasse a luta pela liberta\u00e7\u00e3o e independ\u00eancia de Timor-Leste.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa mudan\u00e7a come\u00e7ou a ser sentida na d\u00e9cada de 90, especialmente quando Ant\u00f3nio Guterres foi eleito Primeiro-Ministro de Portugal em 1995. Conheci Ant\u00f3nio Guterres pela primeira vez numa confer\u00eancia de imprensa ap\u00f3s a nossa chegada a Portugal, depois de termos ocupado a embaixada dos Estados Unidos em Jacarta, a 12 de novembro de 1994. Esta foi a primeira confer\u00eancia de imprensa da RENETIL em Portugal, com a presen\u00e7a de Ant\u00f3nio Guterres, que na altura era l\u00edder da oposi\u00e7\u00e3o. Guterres, ent\u00e3o Secret\u00e1rio-Geral do Partido Socialista (PS), foi convidado por Ramos-Horta para a confer\u00eancia de imprensa conjunta (RENETIL, Ramos-Horta e Ant\u00f3nio Guterres), que teve lugar no final de novembro de 1994, na sede da Associa\u00e7\u00e3o 12 de Novembro, que viria a tornar-se tamb\u00e9m a sede da Dire\u00e7\u00e3o Geral da RENETIL no Exterior. O espa\u00e7o foi oferecido por Rui Marques, o principal organizador da Lusit\u00e2nia Expresso, o navio que levava jovens e estudantes com a miss\u00e3o de paz para Timor, percorreu o Atl\u00e2ntico e chegou ao mar de Timor, conseguindo uma cobertura medi\u00e1tica em torno da quest\u00e3o de Timor.<\/p>\n\n\n\n<p>Na confer\u00eancia de imprensa, Guterres reafirmou o compromisso do Partido Socialista em continuar a lutar pela resolu\u00e7\u00e3o do problema de Timor-Leste, de acordo com a vontade dos timorenses.<\/p>\n\n\n\n<p>Um ano depois, em 1995, o PS venceu as elei\u00e7\u00f5es legislativas em Portugal, e Ant\u00f3nio Guterres foi eleito Primeiro-Ministro. Como Respons\u00e1vel Principal da RENETIL no Exterior, enviei-lhe uma carta de felicita\u00e7\u00f5es pela vit\u00f3ria do PS e pela sua elei\u00e7\u00e3o como Primeiro-Ministro. Na carta, tamb\u00e9m o lembrei de n\u00e3o esquecer a luta do povo de Timor-Leste pela autodetermina\u00e7\u00e3o e independ\u00eancia. N\u00e3o esperava resposta, dado que envi\u00e1mos dezenas de cartas a v\u00e1rios chefes de governo e de Estado, mas nunca obtivemos nenhuma resposta. Desta vez, houve uma resposta, o que n\u00e3o s\u00f3 foi motivo de orgulho, mas tamb\u00e9m uma esperan\u00e7a de que a nossa luta pela independ\u00eancia receberia total apoio do governo portugu\u00eas. Na resposta, Ant\u00f3nio Guterres escreveu:<\/p>\n\n\n\n<p><em>\u201cExmo. Senhor<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>CARLOS DA SILVA LOPES<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Respons\u00e1vel Principal da<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>RENETIL no Exterior<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Rua do Com\u00e9rcio, 8-1\u00ba<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>1100 LISBOA<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Lisboa, 10 de Outubro de 1995<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Caro amigo,<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Venho por este meio agradecer a V.Exa. a am\u00e1vel mensagem de felicita\u00e7\u00f5es que me endere\u00e7ou, em nome dos dirigentes, militantes e simpatizantes da RENETIL.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Quero aproveitar a ocasi\u00e3o para lhe reiterar o firme prop\u00f3sito do meu Governo de exercer uma cont\u00ednua influ\u00eancia a n\u00edvel internacional no sentido do respeito pelas Resolu\u00e7\u00f5es das Na\u00e7\u00f5es Unidas no que concerne \u00e0 quest\u00e3o de Timor-Leste, e ao inalien\u00e1vel direito \u00e0 autodetermina\u00e7\u00e3o do povo timorense.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em><br>Espero poder contar com a colabora\u00e7\u00e3o de V. Exa. no sentido de, em di\u00e1logo com todos os leg\u00edtimos representantes do povo de Timor-Leste, trabalharmos em conjunto para atingir uma solu\u00e7\u00e3o justa e leg\u00edtima que melhor sirva os interesses e as aspira\u00e7\u00f5es do povo de Timor.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em><br>Com os melhores cumprimentos,<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em><br>Ant\u00f3nio Guterres.\u201d<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Ant\u00f3nio Guterres \u00e9 um l\u00edder inteligente e astuto, corajoso, um orador excecional e humanista. \u00c9 um homem de a\u00e7\u00e3o, combatente e de di\u00e1logo, um verdadeiro democrata. Desde a sua elei\u00e7\u00e3o como Primeiro-Ministro, Ant\u00f3nio Guterres demonstrou o seu compromisso com a quest\u00e3o de Timor-Leste n\u00e3o apenas atrav\u00e9s de palavras, mas tamb\u00e9m com a\u00e7\u00f5es concretas. Em 1996, participou na primeira Cimeira \u00c1sia-Europa (ASEM) em Banguecoque, Tail\u00e2ndia. Naquela altura, ele ainda era relativamente novo no mundo da diplomacia, e muitos duvidavam da sua capacidade e coragem. O ditador Soeharto mantinha grande poder e era amplamente respeitado pelos l\u00edderes mundiais, uma vez que a Indon\u00e9sia era uma das grandes pot\u00eancias econ\u00f3micas globais e um dos pa\u00edses mais influentes da ASEAN. Soeharto cultivava boas rela\u00e7\u00f5es com os pa\u00edses ocidentais, n\u00e3o apenas por interesses econ\u00f3micos e pol\u00edticos, mas tamb\u00e9m devido ao seu posicionamento anti-comunista, especialmente num contexto em que pa\u00edses do Indochina, como Laos, Camboja e Vietname, haviam ca\u00eddo sob o dom\u00ednio comunista. Se a Indon\u00e9sia sucumbisse, toda a ASEAN poderia estar sob influ\u00eancia comunista.<\/p>\n\n\n\n<p>Os Estados Unidos e os pa\u00edses ocidentais n\u00e3o precisavam enviar tropas para a Indon\u00e9sia como fizeram no Vietname para combater o comunismo. Os apoios morais, pol\u00edticos e econ\u00f3micos, juntamente com a provis\u00e3o de equipamento militar, foram suficientes para Soeharto conter a influ\u00eancia comunista na Indon\u00e9sia. Devido ao apoio ocidental, Soeharto n\u00e3o s\u00f3 dep\u00f4s Soekarno, pr\u00f3-comunista, como tamb\u00e9m perpetrou massacres contra meio milh\u00e3o de seus cidad\u00e3os, apoiantes do Partido Comunista da Indon\u00e9sia. Milhares foram presos e alguns foram deportados para a ilha de Buru, em Papua. Este \u00e9 o maior d\u00e9bito que os pa\u00edses ocidentais t\u00eam com Soeharto e com a Indon\u00e9sia.<\/p>\n\n\n\n<p>Na v\u00e9spera da Cimeira de ASEM, os jornalistas tentaram testar a coragem de Ant\u00f3nio Guterres e perguntaram-lhe: <em>\u201cSenhor Primeiro-Ministro, vai ou n\u00e3o levantar a quest\u00e3o de Timor-Leste? Tem medo de estragar a Cimeira, \u00e9 isso?\u201d<\/em> (Cf. <em>O Mundo N\u00e3o Tem de Ser Assim: Biografia de Ant\u00f3nio Guterres<\/em>, Latoeiro &amp; Domingues, 2021, p. 230)<\/p>\n\n\n\n<p>Inicialmente, relutou em responder, mas, pressionado, acabou por se pronunciar: <em>\u201cN\u00e3o vou calar a minha voz.\u201d<\/em> (Cf. <em>O Mundo N\u00e3o Tem de Ser Assim: Biografia de Ant\u00f3nio Guterres<\/em>, Latoeiro &amp; Domingues, 2021, p. 233). Esta declara\u00e7\u00e3o teve resson\u00e2ncia em Jacarta, e a Indon\u00e9sia respondeu imediatamente chamando o embaixador da Uni\u00e3o Europeia em Jacarta e amea\u00e7ando abandonar a Cimeira se Portugal levantasse a quest\u00e3o de Timor-Leste. John Major, o Primeiro Ministro brit\u00e2nico, inclusive, sugeriu que a discuss\u00e3o fosse interrompida se surgissem quest\u00f5es controversas, incluindo a quest\u00e3o de Timor-Leste. A press\u00e3o tamb\u00e9m foi exercida pelo anfitri\u00e3o, o Primeiro-Ministro da Tail\u00e2ndia.<\/p>\n\n\n\n<p>Ant\u00f3nio Guterres respondeu diplomaticamente \u00e0s partes que proibiam ou limitavam a discuss\u00e3o de quest\u00f5es controversas na Cimeira ASEM: <em>\u201cBom, n\u00f3s somos representantes das mais variadas civiliza\u00e7\u00f5es do mundo, penso que entre n\u00f3s qualquer assunto se pode levantar, sem nenhum problema, de uma forma diplom\u00e1tica e construtiva&#8230;\u201d<\/em> (Cf. <em>O Mundo N\u00e3o Tem de Ser Assim: Biografia de Ant\u00f3nio Guterres<\/em>, Latoeiro &amp; Domingues, 2021, p. 236)<\/p>\n\n\n\n<p>O Primeiro-Ministro Ant\u00f3nio Guterres demonstrou grande intelig\u00eancia e ast\u00facia. Ele n\u00e3o criou desconforto entre os membros da \u00c1sia e da Europa durante a Cimeira. Mesmo sozinho, jogou pol\u00edtica de forma h\u00e1bil, astuta e elegante, conseguindo colocar Soeharto, que era extremamente poderoso, numa posi\u00e7\u00e3o de subordina\u00e7\u00e3o \u00e0 sua vontade. No final da reuni\u00e3o informal, quando todos os chefes de Estado e de governo estavam de p\u00e9 e prontos para deixar a sala, Guterres viu o ditador Soeharto \u00e0 sua frente. Aproximou-se de Soeharto e disse:<\/p>\n\n\n\n<p><em>\u201cSente-se a\u00ed que eu preciso falar consigo \u2013 e ele sentou-se. Eu sentei-me ao lado dele e disse-lhe: Olhe, as nossas rela\u00e7\u00f5es t\u00eam andado encalhadas e eu tenho uma proposta para lhe fazer; n\u00f3s aceitamos a abertura de sec\u00e7\u00f5es de interesse e voc\u00eas libertem os dirigentes timorenses que est\u00e3o presos.\u201d <\/em>Cf. <em>O Mundo N\u00e3o Tem de Ser Assim: Biografia de Ant\u00f3nio Guterres<\/em>, Latoeiro &amp; Domingues, 2021, p. 236)<\/p>\n\n\n\n<p>A a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e diplom\u00e1tica de Ant\u00f3nio Guterres n\u00e3o parou por a\u00ed. Ele pretendia p\u00f4r fim rapidamente ao longo sofrimento do povo timorense sob a ocupa\u00e7\u00e3o indon\u00e9sia. Apesar das press\u00f5es de v\u00e1rios lados, na Cimeira ASEM, voltou \u00e0 carga. Aproveitando a oportunidade para elogiar o esp\u00edrito de Banguecoque por ter decidido n\u00e3o abordar quest\u00f5es bilaterais, tamb\u00e9m levantou a quest\u00e3o de Timor-Leste, que considerava n\u00e3o ser apenas um problema bilateral entre a Indon\u00e9sia e Portugal, mas uma quest\u00e3o no \u00e2mbito das Na\u00e7\u00f5es Unidas:<\/p>\n\n\n\n<p><em>\u201cGostaria de elogiar o esp\u00edrito de Banguecoque, por esta decis\u00e3o que foi tomada de n\u00e3o se levantarem aqui assuntos bilaterais\u2026 um assunto bilateral que temos com a China, e que est\u00e1 a correr muito bem, \u00e9 Macau, por exemplo\u2026 a outra quest\u00e3o que temos, e que n\u00e3o \u00e9 bilateral, \u00e9 uma quest\u00e3o do \u00e2mbito das Na\u00e7\u00f5es Unidas, \u00e9 sobre Timor-Leste, mas quero aqui dizer que ontem me encontrei com o presidente Suharto, fiz uma proposta e penso que isto ser\u00e1 um novo come\u00e7o, um novo di\u00e1logo.\u201d <\/em>(Cf. <em>O Mundo N\u00e3o Tem de Ser Assim: Biografia de Ant\u00f3nio Guterres<\/em>, Latoeiro &amp; Domingues, 2021, p. 237).<\/p>\n\n\n\n<p>Ant\u00f3nio Guterres conseguiu apresentar a quest\u00e3o de Timor-Leste de forma muito eficaz atrav\u00e9s de uma diplomacia astuta. Ao abordar claramente a quest\u00e3o timorense, a sua interven\u00e7\u00e3o n\u00e3o foi interrompida por nenhum dos participantes e, pelo contr\u00e1rio, recebeu ampla cobertura medi\u00e1tica. Esta foi a primeira vit\u00f3ria de Ant\u00f3nio Guterres.<\/p>\n\n\n\n<p>Alguns anos depois, apesar de nem todos os l\u00edderes timorenses terem sido libertados, com o consentimento da resist\u00eancia timorense, Portugal conseguiu avan\u00e7ar e assinar um acordo com a Indon\u00e9sia para estabelecer sec\u00e7\u00f5es de interesse em Jacarta e Lisboa, com o objetivo de acelerar o processo de resolu\u00e7\u00e3o do problema de Timor-Leste.<\/p>\n\n\n\n<p>O tempo passou rapidamente e, finalmente, chegou o momento t\u00e3o esperado pelos timorenses: o referendo. Ap\u00f3s a assinatura de v\u00e1rios acordos, foi decidido que o referendo se realizaria a 30 de agosto de 1999.<\/p>\n\n\n\n<p>Inicialmente, Portugal estava relutante e hesitante em aceitar a responsabilidade pela seguran\u00e7a do referendo por parte da Indon\u00e9sia, temendo que a manipula\u00e7\u00e3o, o terror e a intimida\u00e7\u00e3o pudessem impedir que o povo se sentisse livre para votar, beneficiando assim a Indon\u00e9sia. No entanto, os l\u00edderes da resist\u00eancia, que conheciam bem o seu povo, convenceram Portugal de que, apesar das press\u00f5es e amea\u00e7as, o povo n\u00e3o escolheria a integra\u00e7\u00e3o, pois os 24 anos de ocupa\u00e7\u00e3o haviam causado sofrimentos extraordin\u00e1rios aos timorenses. Adiar o referendo poderia significar perder a oportunidade para sempre. Portugal seguiu os conselhos da resist\u00eancia e concordou em aceitar a responsabilidade pela seguran\u00e7a do referendo por parte da Indon\u00e9sia.<\/p>\n\n\n\n<p>No dia 30 de agosto, apesar de v\u00e1rias amea\u00e7as, terror e intimida\u00e7\u00f5es, os timorenses dirigiram-se em massa \u00e0s urnas. A 4 de setembro, as Na\u00e7\u00f5es Unidas anunciaram o resultado do referendo, que mostrou uma maioria absoluta dos timorenses a rejeitar a proposta de autonomia especial sob a Indon\u00e9sia, o que significava que Timor-Leste deveria separar-se da Indon\u00e9sia. No entanto, as mil\u00edcias pr\u00f3-integra\u00e7\u00e3o, apoiadas pelas for\u00e7as de seguran\u00e7a indon\u00e9sias, que deveriam garantir a seguran\u00e7a, n\u00e3o ficaram satisfeitas com o resultado e realizaram uma devasta\u00e7\u00e3o em todo Timor-Leste. Muitas vidas foram ceifadas e centenas de milhares de pessoas refugiaram-se nas montanhas e florestas, enquanto outros foram for\u00e7ados a refugiar-se na Indon\u00e9sia, criando uma situa\u00e7\u00e3o de caos total e incontrol\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<p>Neste caos total, o povo de Timor-Leste viveu em ansiedade, desespero e sofrimento extremo. Ant\u00f3nio Guterres e Jorge Sampaio, l\u00edderes portugueses, tamb\u00e9m sentiram profundamente esse sofrimento e procuraram urgentemente uma solu\u00e7\u00e3o para evitar as atrocidades cometidas pelas mil\u00edcias e for\u00e7as indon\u00e9sias, que haviam matado muitos civis inocentes. Guterres considerou a demiss\u00e3o se a viol\u00eancia n\u00e3o cessasse, pois via a consulta popular como uma co-responsabilidade portuguesa. Ele acreditava que a continuidade da viol\u00eancia minaria a confian\u00e7a de Portugal no seu governo, dado o compromisso com a realiza\u00e7\u00e3o e supervis\u00e3o do referendo.<\/p>\n\n\n\n<p>Simultaneamente, o povo portugu\u00eas saiu \u00e0s ruas para expressar a sua solidariedade com os timorenses. Milhares de pessoas reuniram-se em Lisboa, formando um cord\u00e3o humano de 10 quil\u00f3metros que ligava a sede da ONU \u00e0s embaixadas dos pa\u00edses membros permanentes do Conselho de Seguran\u00e7a, todos vestidos de branco. Das janelas, pendiam panos brancos como s\u00edmbolo de um apelo pela paz. Em todo o pa\u00eds, Portugal parou por tr\u00eas minutos para um minuto de sil\u00eancio em homenagem ao povo timorense, que vivia um sofrimento extremo, com muitos j\u00e1 brutalmente assassinados no que ficou conhecido como Setembro Negro. Centenas de milhares de portugueses deslocaram-se a Madrid para protestar em frente \u00e0 embaixada indon\u00e9sia, exigindo o fim da viol\u00eancia e dos massacres. Estes momentos excepcionais evidenciaram a profunda solidariedade do povo portugu\u00eas para com Timor-Leste.<\/p>\n\n\n\n<p>O Presidente Jorge Sampaio e o Primeiro-Ministro Ant\u00f3nio Guterres contactaram repetidamente o Presidente dos Estados Unidos, Bill Clinton, o Primeiro-Ministro brit\u00e2nico, Tony Blair, e outros l\u00edderes pol\u00edticos internacionais, pressionando-os a reconhecer a necessidade urgente de uma interven\u00e7\u00e3o das for\u00e7as de paz em Timor-Leste para proteger os civis inocentes. Ambos mobilizaram todos os recursos dispon\u00edveis, a n\u00edvel nacional e internacional, para apoiar o povo timorense. Quando os Estados Unidos hesitaram em apoiar uma for\u00e7a internacional para Timor, Ant\u00f3nio Guterres e Jorge Sampaio decidiram preparar um batalh\u00e3o de tropas portuguesas para intervir. A fragata Vasco da Gama partiu da sua base em Portugal rumo a Timor-Leste. No entanto, pouco depois, o Secret\u00e1rio-Geral da ONU, Kofi Annan, apelou a Portugal para agir com cautela e evitar o envio de tropas, alertando que a presen\u00e7a de duas for\u00e7as poderia complicar os esfor\u00e7os de paz. Como resultado, o navio teve de regressar \u00e0 sua base, possivelmente como parte de uma estrat\u00e9gia diplom\u00e1tica de Portugal para pressionar os Estados Unidos e os seus aliados ocidentais.<\/p>\n\n\n\n<p>A frustra\u00e7\u00e3o, a ansiedade e a tens\u00e3o envolveram Ant\u00f3nio Guterres ap\u00f3s v\u00e1rias tentativas infrut\u00edferas de contactar o Presidente Bill Clinton para obter apoio. A sua dece\u00e7\u00e3o intensificou-se quando o Secret\u00e1rio de Defesa dos Estados Unidos, William Cohen, manifestou publicamente apoio \u00e0 posi\u00e7\u00e3o da Indon\u00e9sia. Esta situa\u00e7\u00e3o agravou-se ainda mais com a resposta do Conselheiro de Seguran\u00e7a Nacional do Presidente Bill Clinton, que desconsiderou o apelo de Portugal ao afirmar: <em>&#8220;Por termos bombardeado o Kosovo n\u00e3o significa que devamos bombardear Dili.&#8221; <\/em>(Cf. <em>O Mundo N\u00e3o Tem de Ser Assim: Biografia de Ant\u00f3nio Guterres<\/em>, Latoeiro &amp; Domingues, 2021, p. 250)<\/p>\n\n\n\n<p>Ant\u00f3nio Guterres sentiu-se profundamente desapontado e insatisfeito com essas declara\u00e7\u00f5es. Em resposta, convocou o embaixador dos Estados Unidos em Lisboa para exigir uma explica\u00e7\u00e3o. A posi\u00e7\u00e3o amb\u00edgua dos Estados Unidos deixou Guterres ainda mais furioso e preocupado, especialmente devido ao sofrimento extremo do povo timorense. Para pressionar a administra\u00e7\u00e3o americana a apoiar Timor-Leste, ele solicitou v\u00e1rias vezes a ajuda de seu grande amigo, Tony Blair, o primeiro-ministro brit\u00e2nico, que desde o in\u00edcio da crise esteve ao lado de Portugal.<\/p>\n\n\n\n<p>O Primeiro-Ministro portugu\u00eas intensificou a press\u00e3o sobre os Estados Unidos. Numa conversa telef\u00f3nica tensa e dram\u00e1tica, Ant\u00f3nio Guterres dirigiu-se a Bill Clinton com palavras firmes:<\/p>\n\n\n\n<p><em>\u201cOlha, tu tens de ter consci\u00eancia de que voc\u00eas n\u00e3o est\u00e3o a escolher entre a Indon\u00e9sia e Timor, est\u00e3o a escolher entre Indon\u00e9sia e Portugal, que \u00e9 um parceiro da NATO. Independentemente da minha vontade, n\u00e3o h\u00e1 qualquer hip\u00f3tese de Portugal manter tropas na B\u00f3snia e no Kosovo, a proteger os B\u00f3snios e os Kosovares, e na situa\u00e7\u00e3o internacional n\u00e3o proteger os Timorenses. Quer dizer, isto \u00e9 uma coisa imposs\u00edvel e n\u00e3o depende de mim. Isto vai dar um massacre horr\u00edvel\u2026 n\u00e3o penses que \u00e9 por m\u00e1 vontade da minha parte, eu n\u00e3o posso fazer outra coisa, o Pa\u00eds todo est\u00e1 aqui\u2026 estamos na rua.\u201d <\/em>(Cf. <em>O Mundo N\u00e3o Tem de Ser Assim: Biografia de Ant\u00f3nio Guterres<\/em>, Latoeiro &amp; Domingues, 2021, p. 251-252)<\/p>\n\n\n\n<p>Anteriormente, numa conversa informal, o Ministro dos Neg\u00f3cios Estrangeiros de Portugal, Jaime Gama, havia deixado claro a Madeleine Albright, Secret\u00e1ria de Estado dos EUA, que Portugal consideraria a possibilidade de sair da NATO se os Estados Unidos n\u00e3o demonstrassem apoio aos seus aliados na Alian\u00e7a Atl\u00e2ntica. (Cf. <em>O Mundo N\u00e3o Tem de Ser Assim: Biografia de Ant\u00f3nio Guterres<\/em>, Latoeiro &amp; Domingues, 2021, p. 249)<\/p>\n\n\n\n<p>Se Portugal sa\u00edsse da NATO, os Estados Unidos e outros pa\u00edses europeus enfrentariam um problema s\u00e9rio, pois a base a\u00e9rea da NATO em Lajes, nos A\u00e7ores, tem uma localiza\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica desde a Segunda Guerra Mundial. Esta base \u00e9 crucial para as opera\u00e7\u00f5es da NATO, facilitando a interven\u00e7\u00e3o militar em diversas regi\u00f5es de conflito na Europa, no Oriente M\u00e9dio e na \u00c1sia. Al\u00e9m disso, Ant\u00f3nio Guterres tamb\u00e9m recordou ao Presidente Bill Clinton as manifesta\u00e7\u00f5es em Lisboa, onde come\u00e7aram a surgir sentimentos anti-americanos em Portugal devido \u00e0 ina\u00e7\u00e3o dos Estados Unidos face ao massacre em Timor-Leste.<\/p>\n\n\n\n<p>Como resultado da press\u00e3o exercida por Ant\u00f3nio Guterres e Jorge Sampaio, bem como dos esfor\u00e7os para evitar a retirada de Portugal de Kosovo, B\u00f3snia e da NATO, Bill Clinton, ao chegar a Auckland durante uma viagem \u00e0 Nova Zel\u00e2ndia, anunciou que os Estados Unidos concordavam com a cria\u00e7\u00e3o de uma For\u00e7a de Paz da ONU para Timor-Leste. Ele tamb\u00e9m pressionou a Indon\u00e9sia a aceitar as tropas da ONU. Com a mudan\u00e7a de posi\u00e7\u00e3o dos Estados Unidos, foi criada a INTERFET liderada por Peter Cosgrove, que desembarcou em Dili no dia 20 de Setembro de 1999. Com a interven\u00e7\u00e3o da INTERFET em Timor-Leste, a Indon\u00e9sia retirou suas tropas da regi\u00e3o, pondo fim \u00e0 sua ocupa\u00e7\u00e3o militar em Timor-Leste.<\/p>\n\n\n\n<p>Os pa\u00edses cujas for\u00e7as constitu\u00edam a INTERFET eram: Austr\u00e1lia (5.500), Nova Zel\u00e2ndia (1.200), Tail\u00e2ndia (1.600), Bangladesh, Brasil, Canad\u00e1, Dinamarca, Egito, Fiji, Fran\u00e7a, Alemanha, Irlanda, It\u00e1lia, Jord\u00e2nia, Qu\u00e9nia, Mal\u00e1sia, Noruega, Filipinas, Portugal, Singapura, Coreia do Sul, Reino Unido e Estados Unidos.<\/p>\n\n\n\n<p>Se Jorge Sampaio ainda estivesse vivo, provavelmente teria acompanhado Ant\u00f3nio Guterres para comemorar o 25\u00ba anivers\u00e1rio do referendo de Timor-Leste. Sampaio sempre apoiou Timor, primeiro como presidente da C\u00e2mara Municipal de Lisboa e depois como Presidente de Portugal, demonstrando um firme compromisso com a causa timorense. Em 1995, quando se candidatou pela primeira vez \u00e0 Presid\u00eancia de Portugal, convidou-me para o seu escrit\u00f3rio de campanha no dia 7 de dezembro, uma data com significado pol\u00edtico, pois marcava o 20\u00ba anivers\u00e1rio da invas\u00e3o militar indon\u00e9sia a Timor-Leste. Durante a reuni\u00e3o, informei-o sobre uma a\u00e7\u00e3o conjunta que jovens e estudantes timorenses e indon\u00e9sios estavam prestes a realizar nesse mesmo dia nas embaixadas da Holanda e da R\u00fassia, para lembrar ao mundo as consequ\u00eancias da invas\u00e3o, que j\u00e1 vitimou mais de 200.000 timorenses. Ap\u00f3s discutirmos a situa\u00e7\u00e3o, dirigimo-nos para a sala de confer\u00eancias.<\/p>\n\n\n\n<p>Os jornalistas fizeram perguntas sobre a candidatura de Jorge Sampaio e sobre Timor-Leste. Uma coisa que me impressionou muito em Jorge Sampaio foi quando ele respondeu \u00e0s perguntas dos jornalistas sobre Timor-Leste, dizendo:<\/p>\n\n\n\n<p><em>&#8220;Quero vencer as pr\u00f3ximas elei\u00e7\u00f5es presidenciais e trabalharei arduamente para que o povo de Timor possa alcan\u00e7ar a sua liberdade e independ\u00eancia o mais rapidamente poss\u00edvel. Quero visitar Timor-Leste como Presidente de Portugal, num Timor-Leste j\u00e1 independente.&#8221;<\/em> (Saky, RENETIL iha Luta Libertasaun Timor-Lorosa\u2019e: Antes Sem T\u00edtulo Do Que Sem P\u00e1tria!\u201d, 2013, p. 437).<\/p>\n\n\n\n<p>Jorge Sampaio era uma pessoa s\u00e9ria, humilde, sincera e generosa, assim como Ant\u00f3nio Guterres. Ele cumpriu a sua promessa. Em 2001, ap\u00f3s a independ\u00eancia de Timor-Leste da Indon\u00e9sia, Sampaio visitou Timor-Leste como Presidente de Portugal durante o seu segundo mandato. Antes de nos despedirmos, entregou-me um livro da sua autoria intitulado <em>&#8220;Um Olhar Sobre Portugal&#8221;<\/em>. No livro, Jorge Sampaio escreveu:<\/p>\n\n\n\n<p><em>&#8220;Para Carlos Silva Lopes e seus colegas de Timor-Leste. Um enorme respeito pela sua luta e determina\u00e7\u00e3o e tamb\u00e9m com votos para um futuro autodeterminado para a sua P\u00e1tria. Com grande amizade de Jorge Sampaio. (7 Dez\u00ba 95).&#8221;<\/em> (Saky, RENETIL iha Luta Libertasaun Timor-Lorosa\u2019e: Antes Sem T\u00edtulo Do Que Sem P\u00e1tria!\u201d, 2013, p. 437<\/p>\n\n\n\n<p>Ant\u00f3nio Guterres, Jorge Sampaio, M\u00e1rio Soares, Cavaco Silva, Jo\u00e3o de Deus Pinheiro, Dur\u00e3o Barroso, Jaime Gama, Quartim Santos, Ana Gomes, Fernando Neves, Ant\u00f3nio Monteiro, Barbedo Magalh\u00e3es, Lu\u00edsa Teot\u00f3nio Pereira, Rui Marques e muitos portugueses que n\u00e3o posso citar individualmente neste artigo, bem como todo o povo portugu\u00eas em geral, desempenharam um papel e deram uma contribui\u00e7\u00e3o extremamente significativa durante os momentos dif\u00edceis da luta pela independ\u00eancia de Timor-Leste. O povo de Timor-Leste deve sentir-se orgulhoso deles, pois todos s\u00e3o nossos verdadeiros irm\u00e3os. Para eles, s\u00f3 temos uma palavra a dizer: OBRIGADO.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por: Carlos da Silva L. F. R. 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